“Conquistaram um trabalho digno, com alguma estabilidade. Hoje também os meus filhos são estivadores e o meu maior receio é o risco que correm diariamente, uma vez que esta profissão é de alto risco.”, por Maria Silva

Juntei-me a este movimento por já ter passado pelas mesmas dificuldades.

Resolvi escrever estas simples palavras porque tenho ouvido tantas injustiças sobre os estivadores que me revolta! Tenho 60 anos e quando nasci já o meu pai era estivador. Quis o destino também que me casasse com um estivador. Sei a luta que travaram ao defender a estabilidade e os direitos dos estivadores, fico triste quando oiço dizer que os estivadores são brutos e não querem trabalhar. Falando no meu pai, era uma pessoa que só tinha a 4.ª classe, mas tinha mais cultura que algumas pessoas que andaram na universidade e só dizem disparates. Eu já ouvi da boca de várias pessoas que os estivadores ganham muito, o que é mentira.

Pois no tempo do meu pai e do meu marido tinham meses que só trabalhavam um dia, mas saíam todos os dias de casa sem saber se iriam trabalhar e trazer dinheiro para casa. Enfim, foi um tempo difícil e triste, mas conseguiu-se ultrapassar depois de tantas lutas.

Conquistaram um trabalho digno, com alguma estabilidade. Hoje também os meus filhos são estivadores e o meu maior receio é o risco que correm diariamente, uma vez que esta profissão é de alto risco.

Eu como filha, mulher e mãe de estivador, sabendo o que passei e o que estas mulheres corajosas estão a passar, estou nesta luta com elas.
Maria Silva

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“Que país é o nosso que nos empurra para longe de quem amamos?”, por Manuela Silva

Fui filha e mulher de estivador. Juntei-me a esta luta para os apoiar, pois sei quanto eles sofrem com este trabalho duro e de risco, sei o tempo que estão longe dos seus familiares. Por esta profissão ser de desgaste, conheci estivadores que ficaram com doenças profissionais a nível físico e psicológico. Os estivadores, quanto a mim, são homens de trabalho com uma grande importância para a nossa economia. Não entendo o porquê de tanta precariedade, só nos leva a mais desemprego e instabilidade no nosso país, pois não o ajuda a crescer nem a desenvolver-se. Que estes homens que tanto lutaram por um trabalho digno não sejam simplesmente esquecidos, pois são um exemplo para todos os Portugueses! Não desistam desta luta! Todos os Portugueses deviam unir-se e lutar contra a precariedade para mais tarde não verem partir os vossos filhos para longe.
Que país é o nosso que nos empurra para longe de quem amamos?

Manuela Silva

“Só com muito amor e muita compreensão é que se consegue ser mulher de estivador.”, por Ana Sousa

Ser mulher de estivador não é fácil

Escrevo esta carta como mulher de estivador há 16 anos. Comecei como namorada. Foram tempos difíceis, porque qualquer namorada quer estar com o namorado, quer tempo, coisa que um estivador não tem… Depois passei a mulher, “mulher solteira”, porque vivíamos juntos mas ele saía às 6 horas e só regressava às 0h30 ou às 8 horas do dia seguinte, eram 16 e às vezes 24 horas vários dias seguidos, deitava-me sozinha sem saber se ele regressava bem, com medo de que o telefone tocasse com uma notícia menos boa, visto o trabalho deles ser de risco… Se tinha algum acidente pelo caminho por estar tantas horas a trabalhar… É estar em casa sozinha e falarmos ao telefone como se ele estivesse a trabalhar noutro país, porque era das únicas vezes que falávamos.

Não é fácil ser mulher de estivador. Só com muito amor e muita compreensão é que se consegue ser mulher de estivador. Sei que ele trabalha todas aquelas horas ao frio, à chuva, ao calor, para termos uma vida digna, e é isso que temos de compreender. E a seguir somos “mãe solteira”… Tornou-se ainda mais difícil, porque a nossa filha nasceu prematura, esteve dois meses internada, ele só teve direito aos dias de licença de paternidade e depois teve de ir trabalhar para não faltar nada à família, visto eu ter de ficar de baixa para estar com a nossa filha, enquanto ele trabalhava 16, 24 horas. Sofria ele e sofria eu por estar sozinha…

O tempo foi passando, a nossa filha foi crescendo, e sempre com a ausência do pai, durante a semana mal se vêem, ele sai ainda antes de ela acordar e volta já ela está a dormir, eles sofrem por não verem os filhos crescer e trabalham horas a fio para não lhes faltar nada. E nós somos mulheres, fica tudo por nossa conta. Já para não falar da saúde deles, que fica afectada. O meu, com 38 anos já tem duas hérnias na coluna, tem dores horríveis, já esteve de baixa a fazer fisioterapia e continua à espera de ser chamado para ser visto por um especialista para operar, porque é o último recurso para deixar de ter dores. Eles têm o direito de ver os filhos crescerem e terem uma vida familiar estável. A nossa filha já tem 5 anos e já começa a perceber as coisas… A pergunta frequente dela é: “O pai vem jantar hoje?” “Está a trabalhar?” “Vem à festa, mãe?” Já não consigo ter respostas diferentes, uma que ela ouve muito é: “Sim, filha, o pai está a trabalhar, está a ganhar dinheiro!”

Não é fácil ser mulher de estivador, mas tenho muito orgulho em ser mulher de um, tenho muito orgulho no meu marido!

“Não há nada de iluminado no acto de se encolher, pois os outros sentir-se-ão inseguros ao seu redor…”, por Catarina Silva

É no silêncio da noite que escrevo esta carta. Uma noite como tantas outras em que estou sozinha com o meu filho de seis meses, enquanto o pai/marido trabalha naquele porto sem, muitas vezes, ter hora para acabar. Trabalha debaixo de chuva, vento, frio, tempestade e com poucas ou nenhumas condições de segurança. Mas isso não interessa nada nem à comunicação social, nem ao Governo, nem às mentes retrógradas que deles falam. O importante é o porto dar dinheiro e ter alguns escravos a trabalhar. E eu que pensei que o tempo da escravatura já tinha terminado outrora…

Mas voltando ao início, sou mãe há seis meses de um menino lindo que adora o pai, mas que infelizmente por vezes passa uma semana sem vê-lo, pois quando o pai acorda para ir trabalhar, ele ainda dorme e quando o pai chega a casa, 16 horas depois, ele já dorme. Que vida cruel a destes homens… Que triste vida a nossa: nós longe do marido e pai e ele longe de nós. Já dizia Tolstoi que “a verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família”. No entanto, o meu marido perderá grande parte destas alegrias: não viu o filho comer a primeira sopa, sentar-se pela primeira vez, e talvez nem ouça a sua primeira palavra… E porquê? Porque tem de trabalhar arduamente para alguém encher os bolsos, ficar com os lucros do suor dele. Dizem por aí que são “malandros”, “desordeiros”, “que ganham 5000 euros”. Bem, dos que eu conheço, isto não se aplica a nenhum. Por que não dizem que descontam praticamente o mesmo valor que ganham? Por que não dizem que trabalham 16, 24 horas e, muitas vezes, ainda têm de ir trabalhar novamente sem dormir? Por que não dizem que têm salários em atraso e continuam a trabalhar com os serviços mínimos? Por que não falam no número de colegas que morrem naquele trabalho por falta de segurança? Pois, isso já não interessa passar cá para fora!

Sou mãe e dona de casa e não é fácil passar os dias sozinha com um bebé sem o apoio do pai; não é fácil saber que vai crescer sem a presença diária do pai; não foi fácil abdicar do meu trabalho (sabendo que o podia perder) para ficar com o nosso filho em casa; não é fácil ver a pessoa que amamos ser explorada até á exaustão.

Assim, apoio a luta do meu marido contra a precariedade dos portos e dos estivadores e termino com uma citação de Nelson Mandela:

“Não há nada de iluminado no acto de se encolher, pois os outros sentir-se-ão inseguros ao seu redor. Nascemos para manifestar a glória do espírito que está dentro de nós. E à medida que deixamos a nossa luz brilhar, damos permissão para os outros fazerem o mesmo. À medida que libertamos o nosso medo, a nossa presença liberta todos.”

A luta pela verdade é o nosso caminho!

“O meu pai quando trabalha uma semana das oito à meia-noite, no dia seguinte acorda às seis da manhã para ir trabalhar, ficando muito cansado” por Rita Rijo

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Senhor Primeiro-Ministro:

Sou filha de um estivador e tenho 10 anos.

Quando o meu pai está uma semana de noite (que é quando só vem à meia-noite todos os dias – e mesmo na semana que não está ele vem alguns dias à meia-noite), eu fico muito triste e na escola não me consigo concentrar quando penso nisso, apesar de ser boa aluna.

Gostaria que o meu pai estivesse mais tempo em casa comigo.

Neste momento eu sei que não estão a pagar o ordenado ao meu pai e quando preciso de material para a escola eu não peço porque sei que não têm dinheiro e a minha mãe não trabalha.

Tenho um irmão de três anos que já teve de sair do infantário porque não tínhamos dinheiro para o pagar. O meu pai quando trabalha uma semana das oito à meia-noite, no dia seguinte acorda às seis da manhã para ir trabalhar, ficando muito cansado. Eu choro por não termos dinheiro e preciso para o material da escola e muito mais coisas que temos para pagar.

Choro constantemente quando estou em casa e fico muito triste sabendo que o meu pai não está em casa quando chego da escola.

Eu desejo que o meu pai esteja mais tempo comigo!

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