“Basta de insegurança em relação ao pagamento de ordenados a tempo e horas para fazer frente às despesas”, por Liliana Mergulhão

Liliana Mergulhão

Basta! Para mim e para a minha família, basta!

Quero acabar com as ”semanas da tristeza”.

Semana da tristeza é o que chamam os meus filhos às semanas em que o pai, estivador no porto de Lisboa, está no turno da noite. Este turno, cá em casa, quer dizer que essa semana não há pai. Pois mesmo sendo turno da noite, o meu marido é obrigado a entrar às 8 horas da manhã e a sair às 24 horas.

Por isso, basta de pressões psicológicas!

Basta de insegurança em relação ao pagamento de ordenados a tempo e horas para fazer frente às despesas.

Basta de pânicos, sem saber, quando ele sai, se Deus mo vai mandar de volta… A última vez que foi, Deus mandou-mo um pouquinho amachucado…

Não quero saber de palavrões como precariedade, austeridade, e muito menos subsídios.

Só quero que o deixem trabalhar com dignidade, em segurança e com um horário compatível com uma família funcional, com tempo para filhos e afectos. Ah, e já agora com um ordenado que nos permita viver. Não os 600 euros que o patrão oferece aos trabalhadores da empresa concorrente, que os próprios criaram, e que ameaça acabar de vez com o nosso sonho. Deixem-nos viver!

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“Quero que deixem o meu marido trabalhar em paz”, por Alexandra Rijo

Alexandra Rijo

Vou tentar dizer como é ser esposa de um estivador.

Quando era eventual: eram muitos dias a ir almoçar a casa da minha mãe para ela me mandar comida e jantar para ele levar para o trabalho, pois durante a minha gravidez estive de baixa e o dinheiro tinha de dar para as despesas. Depois, quando a minha filha nasceu, não esteve comigo em casa os dias que tinha direito, porque iniciou um curso que lhe permitia deixar de ser eventual.

Era estar em pé com a filha ao colo até à meia-noite a chorar com cólicas à espera que ele chegasse para poder descansar um pouco. Eu sei que ele também precisava de descansar, pois às 6 horas estava de pé para ir trabalhar e regressar novamente à meia-noite!

Depois da segurança profissional veio a dificuldade em não fazer horas extras, pois precisava de descansar, queria estar com a filha, comigo, e não podia.

Eu nunca quis conhecer os locais onde o meu marido trabalha para não viver mais assustada, pois quando adormeço antes de ele chegar e acordo de repente e ainda não está em casa fico aterrorizada, e se não atende o telefone penso logo no pior, pois já houve vários acidentes mortais de colegas.

Já precisei de pedir à dona do ATL da minha filha se a podia levar para casa pois tive de ficar até mais tarde no trabalho e só a fui buscar às 20.30.

Já são muitos anos a trabalhar muitas horas. A minha filha ainda tem sorte, pois sai com o pai de casa e é nesse momento que se vêem, agora o meu filho, que tem 3 anos e fica comigo em casa, já me diz “preciso do meu pai”, “mãe vai buscar o pai, por favor”, com as mãozinhas juntas que dá dó…

Estou a escrever esta carta e a minha filha está a chorar. Não é fácil.

Neste momento estou desempregada e não posso aceitar trabalho/emprego em que o horário não me permita ir buscá-los ao infantário/ATL. Nunca posso contar com ele. Nunca sabe quando vai estar em casa.

Quero que deixem o meu marido trabalhar em paz.

Quero não perder a minha casa.

Quero não ter de pedir ajudas.

Quero não ter de viver de um abono.

“Tenho orgulho em ver esta classe de estivadores unida e a lutar pelos postos de trabalho, pelo seu semelhante e pelo país”, por Lina Vinagre

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Ser mulher de estivador de certeza que não é muito diferente de ser mulher de um bombeiro, de um agente das forças policiais, de enfermeiro e de outras tantas diferentes profissões. Mas hoje grito com toda a minha garra como esposa de um estivador.

Eles não são malandros, não são uma classe privilegiada. São homens que trabalham como todos os outros, e querem trabalhar o horário normal das 8 horas por dia, mas não deixam. Não deixam e eles têm de fazer horário de 16 horas e por vezes de 24 horas. E acima de tudo não podem recusar porque têm de trabalhar para manter uma família.

Família? Aonde está a família?

Nós os dois queríamos criar um projecto familiar e tem ido tudo por água abaixo.
Eu trabalho, na graça de Deus, mas não vivo, sobrevivo como tantas famílias.
Em casa sou mãe e tantas vezes faço o papel de pai. Todos os dias,quando saio de casa com a minha única filha de 8 anos, tenho sempre a mesma pergunta: “Mãe, o pai hoje vem jantar a casa?”

“Filha, não sei, só logo às 15 horas é que a mãe sabe.” Sim! Só no próprio dia é que sabemos, porque as nossas vidas são planeadas consoante a entrada e saída de navios.
Ao chegar a casa depois de um dia de trabalho, de compras de supermercado, volto a ter uma pergunta da minha filha: “Mãe o pai já chegou?” E que resposta posso dar? Entro em casa e oiço gritos: “Paiiiii, Paiiiii”, e vejo a tristeza estampada no rosto da minha filha.

“Mãe, o pai não está em casa!”

“Sim, filha, o pai foi escalado para o turno da noite.”

Depois de todos os nossos afazeres, então ela liga ao pai a desejar boa noite e diz que tem muitas saudades dele. Quantos momentos marcantes da sua filha já perdeu este pai?

Quantos?

Eu quero trabalho digno para o meu marido e para os colegas. Não é justo os patrões acabarem com os postos de trabalhos destes estivadores para criarem postos de trabalho com condições de miséria e eles ganharem milhões. Não quero que o meu marido seja mais um da estatística do desemprego, não quero e nem aceito.

Há trabalho para ele e para tantos homens. Não permitam que isto aconteça.

Quero viver, pagar as minhas despesas e sempre com a receita do nosso trabalho.
Não queremos ser mais uma família a ter de sobreviver com ajudas de outros.
Quero um marido e um pai que acompanhe todos os momentos da nossa família.
Quero que tenha tempo para brincar com a filha e que não diga quase sempre o mesmo: “Agora não, o pai está cansado, o pai não consegue porque está com dores.”

Não é isto que eu quero!

Fogo, quero o meu marido a trabalhar, mas também que receba com dignidade e a horas.
Quero ser feliz, tenho esse direito.

Sou portuguesa com muito orgulho e ainda mais orgulho em ver esta classe de estivadores unida e a lutar pelos postos de trabalho, pelo seu semelhante e pelo país.

Queremos viver e não sobreviver.

 

“Ser mulher de um estivador é ser o seu porto seguro, um apoio, e é lutar ao seu lado por uma vida digna”, por Ana Rato

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Por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher. Sim, um estivador é um grande homem, sinto orgulho em ser mulher de um estivador, mas para sê-lo também é preciso ser uma grande mulher.

Ser mulher de um estivador é passar semanas a fio quase sem ver o marido, é abrir mão de uma carreira profissional, de vida social e familiar, de ter tempo de namorar, de ir ao cinema, mas ainda assim sentir um enorme orgulho! Só um grande homem suporta trabalhar 16 horas por dia, dias a fio, ou 24 horas seguidas, como tantas vezes aconteceu. Ser mulher de um estivador é viver com o coração nas mãos, não saber até quando o marido aguentará isto, não saber se o marido se conseguirá manter acordado no caminho de regresso a casa, pois o cansaço é extremo! Ser mulher de um estivador é tudo isto e muito mais, mas o que dói mais é ver-lhe estampado no rosto o desgosto de não ver a filha crescer.

Quantas e quantas vezes o meu marido, esperançoso, promete que este fim de semana será nosso, a três, e vai conseguir ficar em casa, passear, brincar com a menina, passearmos o cão, termos refeições juntos… E quantas vezes pela manhã o telefone toca e os planos foram em vão: “Tens mesmo que vir, não há mais ninguém para a máquina.” E ele tem de ir, até porque se não for ainda leva com um processo disciplinar. E ficam os planos à espera de outra oportunidade que muitas vezes tarda a chegar.

Temos uma filha pequena, de 15 meses, que na sua ingenuidade já chama pelo papá pela casa toda procurando por ele. “O papá foi trabalhar, meu amor”, respondo eu.

E dói! Dói quando o meu marido, às vezes, passados dias de não ver a filha, me diz: “A nossa menina está tão linda e inteligente, já está tão crescida e tão diferente.” Como se nem vivêssemos os três na mesma casa… Vivemos, mas o pai sai de casa as 6.45 e a menina está a dormir, chega à 1 da manhã e a menina está a dormir.

E dói! Dói este esforço que fazemos enquanto família, o meu marido que trabalha dia e noite, arriscando a vida, debaixo de frio e chuva, calor, vento, a trabalhar 16 horas por dia para ter um ordenado digno de vivermos os três, sem mordomias, mas vivermos dignamente, sem dívidas, com as contas em dia, embora sem vida social. Eu, como mulher, a criar e educar a nossa filha sozinha, a cuidar da casa e da roupa, a ter sempre inúmeras refeições prontas para que o meu marido possa levar e poupar assim mais algum dinheiro. E continuar desempregada, à procura de trabalho, um trabalho que me permita um horário que me permita cuidar da minha filha, porque o pai não vai poder cá estar… No fim disto tudo, deste esforço em família, é a injustiça de ver o meu marido em risco de perder o seu posto de trabalho, que nos dá o único sustento para viver, ter o ordenado em atraso e ver ainda a sua imagem enquanto estivador denegrida na comunicação social. É injusto, é angustiante, é revoltante!

Neste momento, ser mulher de um estivador é ser o seu porto seguro, um apoio, e é lutar ao seu lado por uma vida digna, porque nós QUEREMOS VIVER e não SOBREVIVER!

A mulher de um estivador revoltada e em luta!

“Os senhores patrões dos estivadores deviam reflectir e não deviam prejudicar os seus trabalhadores ao não lhes darem o que precisam e o que é seu direito”, por Inês Gueifão*

Há Flores no Cais - Filha - 20 Mai 2016

Como filha de estivador venho dizer como me sinto ao ter um pai ausente.

Digamos que quase nunca o vejo, só o sinto de manhã quando ele me dá um beijo de despedida antes de ir para o trabalho. Chego a vê-lo duas a três vezes por semana (e poucas horas) dependendo dos turnos. Oiço a minha mãe também a queixar-se por nunca estarmos todos juntos, especialmente no fim de semana. Posso até contar pelos dedos quantas vezes o meu pai conseguiu ir buscar-me à escola, assim como assistir às minhas competições.

Tal como eu sofro com a sua ausência o meu irmão, por ser mais novo, e por ainda não ter noção das coisas como eu tenho, sofre ainda mais. Está constantemente a perguntar à mãe “o pai está em casa?” ou “o pai vem dormir hoje a casa?”. Eu como mais velha apercebo-me que a minha mãe fica triste com a situação e tem pena de não termos um pai mais presente, pois também lhe custa fazer o papel de ambos, mas nós sabemos que ele precisa de trabalhar par poder trazer o seu ordenado para podermos viver.

Também sinto falta do meu pai quando saio com os meus amigos e a boleia é partilhada pelos pais, e eu não tenho o meu para partilhar porque está a trabalhar e nunca pode. Também fico bastante triste quando vejo o meu irmão a dizer à mãe que tem saudades do pai para poder sair com ele ou brincar, enquanto os outros amigos têm. Tem que ser sempre comigo ou a minha mãe que ele pode passear ou brincar.

A minha mãe até já nos chegou a levar  ao Porto de Lisboa para vermos onde o pai trabalha e explicar-nos o que faz com as máquinas e com os contentores dentro e fora dos navios e os riscos que correm nesta profissão. Quando recebo as minhas notas e sei que o meu pai está a trabalhar mando lhe logo um SMS para ele ficar feliz pelo meu empenho que também é mérito do seu trabalho.

Com tudo isto que aqui referi, só queria demonstrar a importância da falta que o meu pai me faz a mim e ao meu mano, e que também estamos a atravessar uma fase difícil neste momento pois a mãe está constantemente a dizer que o dinheiro não chega para tudo, e que o ordenado do pai está em atraso.

Os senhores patrões dos estivadores deviam reflectir e não deviam prejudicar os seus trabalhadores ao não lhes darem o que precisam e o que é seu direito.

Obrigada.

*Filha de Estivador

“Queremos viver e não sobreviver. Queremos dignidade!”, por Patrícia Rosa

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Venho falar na primeira pessoa como mulher de estivador. A minha realidade é a realidade de tantas outras mulheres e famílias que passam pelo mesmo que eu e sofrem na pele o que é estar casada com um estivador.

Quando me juntei com o meu marido ele já era estivador há dois anos. Passaram seis anos e ele continua como eventual onde trabalha com contratos diários… ou seja, trabalha quando é preciso, vai para onde é preciso e recebe ao turno. Ganha por turno a enormíssima quantia de 46 € e chegou a trabalhar 48 seguidas sem dormir! Sim, trabalhou, não trabalha. Desde Novembro de 2015 que está em casa pois a entidade patronal não o chama para trabalhar. Felizmente que para a minha família eu ainda trabalho e recebo também um ordenado exorbitante como os estivadores, levo mensalmente para casa limpos de descontos não chega a 700 €, e é com este dinheiro que tenho de sustentar a minha família e dar de comer aos nossos três filhos.

Durante o período laboral dele houve semanas que não nos víamos, as crianças iam crescendo sem um pai presente, que nunca pode recusar trabalhar pois, caso o fizesse, não tinha ordenado ao final do mês. O máximo que trouxe alguma vez num mês bom de trabalho foi 1200 € e o pior de todos foi mesmo 100 €, onde nesse mês fez dois turnos, não mais. Não tem fins de semana, não tem férias, não tem feriados. Não podemos pensar em passear, pois o meu marido tem de estar disponível 24 horas por dia. Se alguém falta, podem chamá-lo, se aumenta o trabalho podem chamá-lo. Só sabemos se trabalha na véspera, vivemos em sobressalto sem saber se amanhã haverá trabalho.

Não temos vida social, familiar, já nem recebemos convites para nada. Os nossos amigos foram-se afastando, pois o Sérgio não poderia confirmar se podia ir ou não a um jantar, a um convívio, pois não sabia se trabalhava.

A minha família encontra-se numa situação difícil pois estamos a chegar ao limite das nossas forças para conseguir viver com dignidade. Sim, VIVER, pois recuso-me a dizer SOBREVIVER, pois é com o meu salário que quero sustentar-me e não à custa de ajudas do Estado. Quero viver com dignidade e dar um futuro aos meus filhos e ter orgulho de que o que conquistei ao longo da minha vida foi fruto do meu trabalho.

Mas a realidade é que não estamos a conseguir pagar as nossas despesas, está a ficar insustentável cumprir com compromissos bancários pois orgulho-me de não dever nada a ninguém, a não ser ao banco o empréstimo da nossa casa. Mas a continuar assim estou no limite de ter de entregar a casa ao banco e abrir insolvência singular. Quando isso acontecer, terei de ir viver de rendimentos que não os meus, e recuso-me a isso.

Esta é a minha realidade, a realidade do que a minha família está a passar com a ganância de outros, pois não aceito que os patrões digam que não têm dinheiro. Pois se vejo nas notícias que ouve crescimento económico no Porto de Lisboa, onde está o dinheiro? Por que não pagam e não põem os empregados a trabalhar?

Recuso-me a ser vista como uma coitadinha. Recuso-me a sobreviver, quero viver à minha custa, pois pago os meus impostos e as minhas obrigações e como tal exijo que me digam o porquê de os patrões continuarem com este braço de ferro.

Quero que os meus filhos cresçam com o pai, que ele trabalhe em condições e que não sofra mais nenhum acidente de trabalho como já aconteceu. Que trabalhe dignamente e as horas que a lei permite. Que venha dormir todos os dias a casa connosco e que possa ir às festas da escola das crianças, que passe férias e fins de semana connosco, pois já fomos, e muito, privados disso.

Queremos viver e não sobreviver. Queremos dignidade. Queremos a nossa família.

“Não julguem os estivadores quando só sabem metade da história”, por Erica Nunes

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Escrevo esta carta como mulher de estivador há nove anos.

Estes estivadores, rotulados a maioria das vezes como malandros, marginais, brutamontes e muitas outras coisas que nem vale a pena frisar, têm por trás uma família e filhos e é por isso que lutam.

O problema aqui é que as pessoas não sabem quanto é difícil ser estivador, não sabem de quanto eles abdicam para trazer um salário no final do mês. Estes homens trabalham muitas vezes 24 horas sobre 24 h sob chuva, frio, vento, sol, calor e com más condições de trabalho. A cada dia que se apresentam para trabalhar põem em risco a própria vida.

Têm um trabalho duro a nível físico e psicológico, um trabalho muito perigoso. Estes homens vestem a camisola por aquilo que fazem, mas para isso deixam de ter vida familiar. E é aqui que eu e as minhas filhas entramos. Com os horários rotativos, carga horária elevada e sem poder recusar turnos extras com receio de punições, a família passa automaticamente para segundo plano. Eu tive de abdicar da minha vida profissional para conseguir acompanhar as minhas filhas. Sou mãe e pai ao mesmo tempo e ainda tenho às minhas costas tudo o que implica ter filhos e uma casa. Aqui não se dividem tarefas: sou só eu e as minhas filhas porque ele tem de trabalhar. É difícil gerir tudo sozinha. Ele é o sustento desta família, é o nosso pilar, e a sua ausência é muito sentida, especialmente pelas nossas filhas, isto para não falar dos abanões que o nosso casamento leva.

Ele está dias e dias sem ver as filhas acordadas, são muito poucas as vezes que se senta à mesa para uma refeição em família, são raríssimos os momentos de brincadeiras entre pai e filhas. O pouco tempo livre que tem aproveita-o para repor horas de sono e tentar descansar. É um pai muito ausente: falta a festas na escola, não vai ver o sarau de ballet, não vai pôr nem buscar a filha à escola, não ajuda nos trabalhos de casa, não dá banho e tantas outras coisas porque pura e simplesmente não está presente. O facto de ser estivador não lhe permite ser diferente. E como ele gostava que fosse diferente, nós gostávamos que fosse diferente! Custa muito ter de ouvir constantemente a minha filha de apenas seis anos perguntar: “O pai hoje vem de dia ou de noite?” “O pai hoje vem para casa?” “Por que é que o pai nunca vai à minha escola?” “Tenho saudades do papá, tenho saudades dos abraços e dos beijinhos dele”.

Ao crescer, a nossa filha foi-se apercebendo e habituando a que o pai não podia estar, já é ela que muitas vezes responde: “O meu pai não pode, tem de trabalhar, vou só eu, a mãe e a mana”, ou por exemplo, quando lhe perguntam na escola como foi o fim de semana e ela nunca inclui o pai.

Nos raros momentos que ele consegue estar em casa, os olhos da minha filha brilham. Para ela, o pai estar em casa é melhor do que dar-lhe um brinquedo novo.
Lembro-me de ter a nossa filha internada… E ele esteve quatro dias sem nos ir visitar ao hospital, eu já não tinha respostas para dar à miúda, engolia em seco e dizia: tem de trabalhar, filha, para poderes ter uma casa e comidinha na mesa.

Isto é viver?! Não, não é viver. É sobreviver.

Esta miúda tem apenas seis anos e tem tanta noção do que se passa… Não pede nada sem primeiro perguntar: “Tens dinheiro para comprar mamã?” ou “O pai já recebeu?” Ela não tem de estar a viver isto com esta intensidade, só tem de ser criança e ser feliz.
O patronato faz pressão psicológica e estes homens acabam por descarregar em casa, naqueles que lhes são mais próximos. Nós, mulheres de estivadores, não temos uma vida facilitada. Eles não ganham assim tão bem como se diz, quando são os únicos a trazer dinheiro para casa.

Tenho o meu marido em casa desde Novembro de 2015 com baixa psicológica. Elas não matam, mas moem, e eles começam a cair. Está a tornar-se insustentável esta situação.
Eles só querem poder trabalhar com dignidade e chegar ao final do mês e receber o ordenado a que têm direito, para pagar contas. Não querem andar a pedir esmolas, querem poder deitar a cabeça na almofada e saber que no final do mês não devem nada a ninguém. Querem poder dar o melhor às suas famílias, aos seus filhos. Quem não quer?
Os estivadores, afinal, não são assim tão malandros, só tentam defender o seu posto de trabalho e assegurar a sustentabilidade das suas famílias. E quem não faria o mesmo no lugar deles?

Não julguem os estivadores quando só sabem metade da história. Aqui ninguém quer ser coitadinho, só queremos que as pessoas saibam toda a verdade. Como em tantos outros trabalhos e empresas, por trás de um estivador está uma família que depende única e exclusivamente dele, do seu trabalho.

Como mulher de estivador tenho muito orgulho nesta família que é a estiva. Unidos somos mais fortes.