“Queremos viver e não sobreviver. Queremos dignidade!”, por Patrícia Rosa

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Venho falar na primeira pessoa como mulher de estivador. A minha realidade é a realidade de tantas outras mulheres e famílias que passam pelo mesmo que eu e sofrem na pele o que é estar casada com um estivador.

Quando me juntei com o meu marido ele já era estivador há dois anos. Passaram seis anos e ele continua como eventual onde trabalha com contratos diários… ou seja, trabalha quando é preciso, vai para onde é preciso e recebe ao turno. Ganha por turno a enormíssima quantia de 46 € e chegou a trabalhar 48 seguidas sem dormir! Sim, trabalhou, não trabalha. Desde Novembro de 2015 que está em casa pois a entidade patronal não o chama para trabalhar. Felizmente que para a minha família eu ainda trabalho e recebo também um ordenado exorbitante como os estivadores, levo mensalmente para casa limpos de descontos não chega a 700 €, e é com este dinheiro que tenho de sustentar a minha família e dar de comer aos nossos três filhos.

Durante o período laboral dele houve semanas que não nos víamos, as crianças iam crescendo sem um pai presente, que nunca pode recusar trabalhar pois, caso o fizesse, não tinha ordenado ao final do mês. O máximo que trouxe alguma vez num mês bom de trabalho foi 1200 € e o pior de todos foi mesmo 100 €, onde nesse mês fez dois turnos, não mais. Não tem fins de semana, não tem férias, não tem feriados. Não podemos pensar em passear, pois o meu marido tem de estar disponível 24 horas por dia. Se alguém falta, podem chamá-lo, se aumenta o trabalho podem chamá-lo. Só sabemos se trabalha na véspera, vivemos em sobressalto sem saber se amanhã haverá trabalho.

Não temos vida social, familiar, já nem recebemos convites para nada. Os nossos amigos foram-se afastando, pois o Sérgio não poderia confirmar se podia ir ou não a um jantar, a um convívio, pois não sabia se trabalhava.

A minha família encontra-se numa situação difícil pois estamos a chegar ao limite das nossas forças para conseguir viver com dignidade. Sim, VIVER, pois recuso-me a dizer SOBREVIVER, pois é com o meu salário que quero sustentar-me e não à custa de ajudas do Estado. Quero viver com dignidade e dar um futuro aos meus filhos e ter orgulho de que o que conquistei ao longo da minha vida foi fruto do meu trabalho.

Mas a realidade é que não estamos a conseguir pagar as nossas despesas, está a ficar insustentável cumprir com compromissos bancários pois orgulho-me de não dever nada a ninguém, a não ser ao banco o empréstimo da nossa casa. Mas a continuar assim estou no limite de ter de entregar a casa ao banco e abrir insolvência singular. Quando isso acontecer, terei de ir viver de rendimentos que não os meus, e recuso-me a isso.

Esta é a minha realidade, a realidade do que a minha família está a passar com a ganância de outros, pois não aceito que os patrões digam que não têm dinheiro. Pois se vejo nas notícias que ouve crescimento económico no Porto de Lisboa, onde está o dinheiro? Por que não pagam e não põem os empregados a trabalhar?

Recuso-me a ser vista como uma coitadinha. Recuso-me a sobreviver, quero viver à minha custa, pois pago os meus impostos e as minhas obrigações e como tal exijo que me digam o porquê de os patrões continuarem com este braço de ferro.

Quero que os meus filhos cresçam com o pai, que ele trabalhe em condições e que não sofra mais nenhum acidente de trabalho como já aconteceu. Que trabalhe dignamente e as horas que a lei permite. Que venha dormir todos os dias a casa connosco e que possa ir às festas da escola das crianças, que passe férias e fins de semana connosco, pois já fomos, e muito, privados disso.

Queremos viver e não sobreviver. Queremos dignidade. Queremos a nossa família.

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Autor: Há Flores no Cais

Blogue das mulheres dos Estivadores

3 comentários em ““Queremos viver e não sobreviver. Queremos dignidade!”, por Patrícia Rosa”

  1. Sou filha de estivador, irmã de estivador, sobrinha de estivador e com muito orgulho. Apoio movimentos que venham a dignificar essa profissão. Já conversei várias vezes com o Kbsa Sandro Olimpio sobre montar um grupo feminino, onde pudéssemos levantar nossa voz a favor da classe. Lembro da minha mãe participando de um panelaço a mais de 20 anos atras . Podem contar comigo.

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