“Os senhores patrões dos estivadores deviam reflectir e não deviam prejudicar os seus trabalhadores ao não lhes darem o que precisam e o que é seu direito”, por Inês Gueifão*

Há Flores no Cais - Filha - 20 Mai 2016

Como filha de estivador venho dizer como me sinto ao ter um pai ausente.

Digamos que quase nunca o vejo, só o sinto de manhã quando ele me dá um beijo de despedida antes de ir para o trabalho. Chego a vê-lo duas a três vezes por semana (e poucas horas) dependendo dos turnos. Oiço a minha mãe também a queixar-se por nunca estarmos todos juntos, especialmente no fim de semana. Posso até contar pelos dedos quantas vezes o meu pai conseguiu ir buscar-me à escola, assim como assistir às minhas competições.

Tal como eu sofro com a sua ausência o meu irmão, por ser mais novo, e por ainda não ter noção das coisas como eu tenho, sofre ainda mais. Está constantemente a perguntar à mãe “o pai está em casa?” ou “o pai vem dormir hoje a casa?”. Eu como mais velha apercebo-me que a minha mãe fica triste com a situação e tem pena de não termos um pai mais presente, pois também lhe custa fazer o papel de ambos, mas nós sabemos que ele precisa de trabalhar par poder trazer o seu ordenado para podermos viver.

Também sinto falta do meu pai quando saio com os meus amigos e a boleia é partilhada pelos pais, e eu não tenho o meu para partilhar porque está a trabalhar e nunca pode. Também fico bastante triste quando vejo o meu irmão a dizer à mãe que tem saudades do pai para poder sair com ele ou brincar, enquanto os outros amigos têm. Tem que ser sempre comigo ou a minha mãe que ele pode passear ou brincar.

A minha mãe até já nos chegou a levar  ao Porto de Lisboa para vermos onde o pai trabalha e explicar-nos o que faz com as máquinas e com os contentores dentro e fora dos navios e os riscos que correm nesta profissão. Quando recebo as minhas notas e sei que o meu pai está a trabalhar mando lhe logo um SMS para ele ficar feliz pelo meu empenho que também é mérito do seu trabalho.

Com tudo isto que aqui referi, só queria demonstrar a importância da falta que o meu pai me faz a mim e ao meu mano, e que também estamos a atravessar uma fase difícil neste momento pois a mãe está constantemente a dizer que o dinheiro não chega para tudo, e que o ordenado do pai está em atraso.

Os senhores patrões dos estivadores deviam reflectir e não deviam prejudicar os seus trabalhadores ao não lhes darem o que precisam e o que é seu direito.

Obrigada.

*Filha de Estivador

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Autor: Há Flores no Cais

Blogue das mulheres dos Estivadores

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