“Tenho orgulho em ver esta classe de estivadores unida e a lutar pelos postos de trabalho, pelo seu semelhante e pelo país”, por Lina Vinagre

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Ser mulher de estivador de certeza que não é muito diferente de ser mulher de um bombeiro, de um agente das forças policiais, de enfermeiro e de outras tantas diferentes profissões. Mas hoje grito com toda a minha garra como esposa de um estivador.

Eles não são malandros, não são uma classe privilegiada. São homens que trabalham como todos os outros, e querem trabalhar o horário normal das 8 horas por dia, mas não deixam. Não deixam e eles têm de fazer horário de 16 horas e por vezes de 24 horas. E acima de tudo não podem recusar porque têm de trabalhar para manter uma família.

Família? Aonde está a família?

Nós os dois queríamos criar um projecto familiar e tem ido tudo por água abaixo.
Eu trabalho, na graça de Deus, mas não vivo, sobrevivo como tantas famílias.
Em casa sou mãe e tantas vezes faço o papel de pai. Todos os dias,quando saio de casa com a minha única filha de 8 anos, tenho sempre a mesma pergunta: “Mãe, o pai hoje vem jantar a casa?”

“Filha, não sei, só logo às 15 horas é que a mãe sabe.” Sim! Só no próprio dia é que sabemos, porque as nossas vidas são planeadas consoante a entrada e saída de navios.
Ao chegar a casa depois de um dia de trabalho, de compras de supermercado, volto a ter uma pergunta da minha filha: “Mãe o pai já chegou?” E que resposta posso dar? Entro em casa e oiço gritos: “Paiiiii, Paiiiii”, e vejo a tristeza estampada no rosto da minha filha.

“Mãe, o pai não está em casa!”

“Sim, filha, o pai foi escalado para o turno da noite.”

Depois de todos os nossos afazeres, então ela liga ao pai a desejar boa noite e diz que tem muitas saudades dele. Quantos momentos marcantes da sua filha já perdeu este pai?

Quantos?

Eu quero trabalho digno para o meu marido e para os colegas. Não é justo os patrões acabarem com os postos de trabalhos destes estivadores para criarem postos de trabalho com condições de miséria e eles ganharem milhões. Não quero que o meu marido seja mais um da estatística do desemprego, não quero e nem aceito.

Há trabalho para ele e para tantos homens. Não permitam que isto aconteça.

Quero viver, pagar as minhas despesas e sempre com a receita do nosso trabalho.
Não queremos ser mais uma família a ter de sobreviver com ajudas de outros.
Quero um marido e um pai que acompanhe todos os momentos da nossa família.
Quero que tenha tempo para brincar com a filha e que não diga quase sempre o mesmo: “Agora não, o pai está cansado, o pai não consegue porque está com dores.”

Não é isto que eu quero!

Fogo, quero o meu marido a trabalhar, mas também que receba com dignidade e a horas.
Quero ser feliz, tenho esse direito.

Sou portuguesa com muito orgulho e ainda mais orgulho em ver esta classe de estivadores unida e a lutar pelos postos de trabalho, pelo seu semelhante e pelo país.

Queremos viver e não sobreviver.

 

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Autor: Há Flores no Cais

Blogue das mulheres dos Estivadores

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