“Quero que deixem o meu marido trabalhar em paz”, por Alexandra Rijo

Alexandra Rijo

Vou tentar dizer como é ser esposa de um estivador.

Quando era eventual: eram muitos dias a ir almoçar a casa da minha mãe para ela me mandar comida e jantar para ele levar para o trabalho, pois durante a minha gravidez estive de baixa e o dinheiro tinha de dar para as despesas. Depois, quando a minha filha nasceu, não esteve comigo em casa os dias que tinha direito, porque iniciou um curso que lhe permitia deixar de ser eventual.

Era estar em pé com a filha ao colo até à meia-noite a chorar com cólicas à espera que ele chegasse para poder descansar um pouco. Eu sei que ele também precisava de descansar, pois às 6 horas estava de pé para ir trabalhar e regressar novamente à meia-noite!

Depois da segurança profissional veio a dificuldade em não fazer horas extras, pois precisava de descansar, queria estar com a filha, comigo, e não podia.

Eu nunca quis conhecer os locais onde o meu marido trabalha para não viver mais assustada, pois quando adormeço antes de ele chegar e acordo de repente e ainda não está em casa fico aterrorizada, e se não atende o telefone penso logo no pior, pois já houve vários acidentes mortais de colegas.

Já precisei de pedir à dona do ATL da minha filha se a podia levar para casa pois tive de ficar até mais tarde no trabalho e só a fui buscar às 20.30.

Já são muitos anos a trabalhar muitas horas. A minha filha ainda tem sorte, pois sai com o pai de casa e é nesse momento que se vêem, agora o meu filho, que tem 3 anos e fica comigo em casa, já me diz “preciso do meu pai”, “mãe vai buscar o pai, por favor”, com as mãozinhas juntas que dá dó…

Estou a escrever esta carta e a minha filha está a chorar. Não é fácil.

Neste momento estou desempregada e não posso aceitar trabalho/emprego em que o horário não me permita ir buscá-los ao infantário/ATL. Nunca posso contar com ele. Nunca sabe quando vai estar em casa.

Quero que deixem o meu marido trabalhar em paz.

Quero não perder a minha casa.

Quero não ter de pedir ajudas.

Quero não ter de viver de um abono.

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Autor: Há Flores no Cais

Blogue das mulheres dos Estivadores

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