“Não há nada de iluminado no acto de se encolher, pois os outros sentir-se-ão inseguros ao seu redor…”, por Catarina Silva

É no silêncio da noite que escrevo esta carta. Uma noite como tantas outras em que estou sozinha com o meu filho de seis meses, enquanto o pai/marido trabalha naquele porto sem, muitas vezes, ter hora para acabar. Trabalha debaixo de chuva, vento, frio, tempestade e com poucas ou nenhumas condições de segurança. Mas isso não interessa nada nem à comunicação social, nem ao Governo, nem às mentes retrógradas que deles falam. O importante é o porto dar dinheiro e ter alguns escravos a trabalhar. E eu que pensei que o tempo da escravatura já tinha terminado outrora…

Mas voltando ao início, sou mãe há seis meses de um menino lindo que adora o pai, mas que infelizmente por vezes passa uma semana sem vê-lo, pois quando o pai acorda para ir trabalhar, ele ainda dorme e quando o pai chega a casa, 16 horas depois, ele já dorme. Que vida cruel a destes homens… Que triste vida a nossa: nós longe do marido e pai e ele longe de nós. Já dizia Tolstoi que “a verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família”. No entanto, o meu marido perderá grande parte destas alegrias: não viu o filho comer a primeira sopa, sentar-se pela primeira vez, e talvez nem ouça a sua primeira palavra… E porquê? Porque tem de trabalhar arduamente para alguém encher os bolsos, ficar com os lucros do suor dele. Dizem por aí que são “malandros”, “desordeiros”, “que ganham 5000 euros”. Bem, dos que eu conheço, isto não se aplica a nenhum. Por que não dizem que descontam praticamente o mesmo valor que ganham? Por que não dizem que trabalham 16, 24 horas e, muitas vezes, ainda têm de ir trabalhar novamente sem dormir? Por que não dizem que têm salários em atraso e continuam a trabalhar com os serviços mínimos? Por que não falam no número de colegas que morrem naquele trabalho por falta de segurança? Pois, isso já não interessa passar cá para fora!

Sou mãe e dona de casa e não é fácil passar os dias sozinha com um bebé sem o apoio do pai; não é fácil saber que vai crescer sem a presença diária do pai; não foi fácil abdicar do meu trabalho (sabendo que o podia perder) para ficar com o nosso filho em casa; não é fácil ver a pessoa que amamos ser explorada até á exaustão.

Assim, apoio a luta do meu marido contra a precariedade dos portos e dos estivadores e termino com uma citação de Nelson Mandela:

“Não há nada de iluminado no acto de se encolher, pois os outros sentir-se-ão inseguros ao seu redor. Nascemos para manifestar a glória do espírito que está dentro de nós. E à medida que deixamos a nossa luz brilhar, damos permissão para os outros fazerem o mesmo. À medida que libertamos o nosso medo, a nossa presença liberta todos.”

A luta pela verdade é o nosso caminho!

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Autor: Há Flores no Cais

Blogue das mulheres dos Estivadores

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