“Só com muito amor e muita compreensão é que se consegue ser mulher de estivador.”, por Ana Sousa

Ser mulher de estivador não é fácil

Escrevo esta carta como mulher de estivador há 16 anos. Comecei como namorada. Foram tempos difíceis, porque qualquer namorada quer estar com o namorado, quer tempo, coisa que um estivador não tem… Depois passei a mulher, “mulher solteira”, porque vivíamos juntos mas ele saía às 6 horas e só regressava às 0h30 ou às 8 horas do dia seguinte, eram 16 e às vezes 24 horas vários dias seguidos, deitava-me sozinha sem saber se ele regressava bem, com medo de que o telefone tocasse com uma notícia menos boa, visto o trabalho deles ser de risco… Se tinha algum acidente pelo caminho por estar tantas horas a trabalhar… É estar em casa sozinha e falarmos ao telefone como se ele estivesse a trabalhar noutro país, porque era das únicas vezes que falávamos.

Não é fácil ser mulher de estivador. Só com muito amor e muita compreensão é que se consegue ser mulher de estivador. Sei que ele trabalha todas aquelas horas ao frio, à chuva, ao calor, para termos uma vida digna, e é isso que temos de compreender. E a seguir somos “mãe solteira”… Tornou-se ainda mais difícil, porque a nossa filha nasceu prematura, esteve dois meses internada, ele só teve direito aos dias de licença de paternidade e depois teve de ir trabalhar para não faltar nada à família, visto eu ter de ficar de baixa para estar com a nossa filha, enquanto ele trabalhava 16, 24 horas. Sofria ele e sofria eu por estar sozinha…

O tempo foi passando, a nossa filha foi crescendo, e sempre com a ausência do pai, durante a semana mal se vêem, ele sai ainda antes de ela acordar e volta já ela está a dormir, eles sofrem por não verem os filhos crescer e trabalham horas a fio para não lhes faltar nada. E nós somos mulheres, fica tudo por nossa conta. Já para não falar da saúde deles, que fica afectada. O meu, com 38 anos já tem duas hérnias na coluna, tem dores horríveis, já esteve de baixa a fazer fisioterapia e continua à espera de ser chamado para ser visto por um especialista para operar, porque é o último recurso para deixar de ter dores. Eles têm o direito de ver os filhos crescerem e terem uma vida familiar estável. A nossa filha já tem 5 anos e já começa a perceber as coisas… A pergunta frequente dela é: “O pai vem jantar hoje?” “Está a trabalhar?” “Vem à festa, mãe?” Já não consigo ter respostas diferentes, uma que ela ouve muito é: “Sim, filha, o pai está a trabalhar, está a ganhar dinheiro!”

Não é fácil ser mulher de estivador, mas tenho muito orgulho em ser mulher de um, tenho muito orgulho no meu marido!

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Autor: Há Flores no Cais

Blogue das mulheres dos Estivadores

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