“Temos de ser supermulheres e darmos a melhor resposta possível”, por Susana Gueifão

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Eu sou mulher de estivador há 10 anos e posso dizer que não é tarefa fácil, pois temos de ser sem dúvida supermulheres. Temos de ser esposa, mãe/pai, amiga, dona de casa… E digo isto porque o nosso pilar principal tem dias que trabalha 16 a 24 horas, ou até mesmo 48 horas, caso não haja mais ninguém para os substituir.

Enquanto isso, cá em casa a sua ausência é sentida não só por mim mas principalmente pelos nossos filhos. Eu sei sem dúvida que é por nós que ele tem de trabalhar tantas horas, uma vez que eu sou desempregada e é só um ordenado para governar a casa e a nossa família que é constituída por quatro elementos.

E quantas vezes eu fico com o meu coração apertado e cheio de ansiedade à espera que ele regresse a casa são e salvo, uma vez que esta é uma profissão de risco, principalmente quando têm de fazer serviços na base com condições climatéricas nada favoráveis, assim como noutros serviços em que têm de andar em cima de contentores com 8 metros de altura ou mais a engatar os cabos, e muitas outras situações que podem originar acidentes. E eu posso falar disso melhor que ninguém, porque para além do meu marido também tenho dois irmãos estivadores. Um já sofreu graves acidentes e num deles ficou com marcas para o resto das nossas vidas. Ainda hoje é complicado gerir isso emocionalmente, principalmente para os meus pais foi muito complicado. Mas com bons pilares em casa e com muita união, fé e amor, tudo é ultrapassado a seu tempo.

É difícil ser mulher de estivador, pois nunca podemos planear nada em família ou com amigos porque eles têm de estar sempre disponíveis para trabalhar como se fossem médicos e tivessem que ir salvar uma vida. É triste mas é verdade.

Quantas vezes já não nos aconteceu estarmos numa reunião familiar ou com amigos ou mesmo na escola dos miúdos e de repente toca o telefone e o meu marido simplesmente nos deixa para ir cumprir o seu dever de estivador!

E o salário? Esse dito salário que as pessoas tanto referem e que não é na realidade nada comparado ao que o meu marido trás para casa. Pois fiquem a saber que o ordenado que entra na minha casa é de 1300€, para poder governar uma casa com todas as despesas de uma família normal, ou seja pagar água, luz, gás, saúde, educação, etc.

Mas o mais difícil de gerir mesmo é as perguntas dos nossos filhos, como por exemplo: “Mãe, por que é que o pai não me pode ir buscar à escola um dia?” “Por que é que o pai não vai ao acampamento de pais dos escuteiros?” “Mãe, os meus amigos perguntaram por que é que o pai nunca anda connosco?” E a que mais me entristece: “Mãe, o pai hoje vem para casa?”

Aí, sim, temos de ser supermulheres e darmos a melhor resposta possível.

Mas difícil, difícil, tem sido agora nestes últimos meses com o que temos vindo a passar com toda esta situação que eu já não aguento mais e que para mim chegou aos limites dos limites! Então nós pagamos os nossos impostos, pagamos as nossas contas a horas, não devemos nada a ninguém e depois deparamos com a falta de pagamento de salário sem qualquer motivo para tal?!

Não aceito que os patrões digam que não há dinheiro para salários, quando ouvimos dizer na comunicação social que ouve um crescimento económico no porto de Lisboa. Então onde anda o dinheiro?

Também não entendo o porquê deste braço de ferro dos patrões!

Eu, mulher de estivador, não sou uma coitadinha e não quero ser vista como tal, porque o que eu e a minha família temos e o que queremos ainda conquistar, queremos fazê-lo com o suor do nosso trabalho, porque esse é o nosso maior orgulho!

Eu só quero ter uma vida humilde, digna e feliz com a minha família, como qualquer outra família!

Nós só queremos ter uma vida normal como uma família normal.

Os estivadores são uma família com muitas flores.

Juntos vamos formar um jardim.

“Mulher de estivador não pode ficar doente! Não tem esse direito, porque todas as responsabilidades caem sobre ela. Ela é o pilar da família!”, por Eliana Carvalho

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Ninguém imagina o que é ser mulher de estivador!

Se ser mãe é ser um pouco de todas as profissões, ser mulher de estivador é muito mais: é ser mulher, psicóloga, enfermeira, amiga, dona de casa; é ser mãe e pai ao mesmo tempo! Sim, ser mãe e pai ao mesmo tempo. Ser pai porque quantas vezes ouço os meus filhos a perguntar pelo pai e eu já sem resposta tenho de dizer:

«Está a trabalhar!»

Vivo em constante angústia e sobressalto sem nunca saber se no fim do dia ele vem para casa com saúde ou sem ela.

Quando o telefone toca e vejo que é um colega ou que é o número do local de trabalho, toda eu tremo.

Acordar às 3 da manhã com a notícia de que o meu marido ia para o hospital porque tinha caído ao rio não é fácil. Sem ninguém para me auxiliar, tive de ir para o hospital com o meu filho nos braços para saber o real estado em que o meu marido tinha ficado.

É uma dor, um sofrimento constante que ninguém imagina!

Ouvir a minha filha de sete anos a chorar e ficar com uma tristeza do tamanho do mundo porque o seu pai, o seu ídolo, não iria estar presente na sua primeira atuação pública, a sua primeira prova de patinagem. Isto porque no dia da prova e apesar de ter cortado o turno, ligaram-lhe de manhã para ir trabalhar.

Foi uma tristeza conjunta! O pai, o ídolo, sentia-se impotente porque nada podia fazer, e a filha com a tristeza estampada no rosto.

Podia não ter ido trabalhar, mas e depois as consequências, os processos disciplinares, as faltas injustificadas?!

Ter um filho a arder com febre e ter de ir com ele para o hospital mas não poder porque o outro não pode ficar sozinho em casa! Tem que se esperar até que o estivador venha do trabalho à hora que for.

Mulher de estivador não pode ficar doente! Não tem esse direito, porque todas as responsabilidades caem sobre ela. Ela é o pilar da família!

Ninguém consegue imaginar o que é quando o nosso marido chega a casa, completamente transtornado, enervado e sem fala, porque viu um amigo, um colega a morrer à sua frente, devido a um acidente no trabalho; ou a sofrer porque outro ficou com lesões para toda a vida devido a um acidente! Como conseguimos viver com esta situação todos os dias?

Não há dinheiro nenhum no mundo que pague tudo isto!

Trabalham 16 ou 24 horas sem poderem fazer planos com a família porque só no próprio dia é que sabem se estão escalados para o próximo turno!

Ou apenas porque o navio tem de sair àquela hora. Então tem que se acabar o navio. Diz-se que os estivadores ganham bem. O que são 1300 euros para uma família de quatro pessoas?

Eu, felizmente, trabalho, mas só o meu ordenado é para pagar a prestação da casa, pois ganho o ordenado mínimo nacional. Então e o resto: água, luz, gás, educação, saúde?!

Não tenho direito a abono de família nem a qualquer tipo de subsídio, mas também não quero! Pago os meus impostos e faço os meus descontos para que outros possam usufruir. Quero apenas que o Governo cumpra com as suas funções e ponha fim a tudo o que se passa no Porto de Lisboa, um local público gerido por privados com lucros enormes!

Exijo apenas que o meu marido tenha o seu ordenado no fim do mês e em dia!

Ser mulher de estivador é difícil, mas é um enorme orgulho ver que dentro desta classe trabalhadora existe uma coisa que há muito se perdeu em Portugal: a união e o conceito de família no trabalho!

Porque apesar de os quererem destruir, a estiva é uma família!

“Basta de insegurança em relação ao pagamento de ordenados a tempo e horas para fazer frente às despesas”, por Liliana Mergulhão

Liliana Mergulhão

Basta! Para mim e para a minha família, basta!

Quero acabar com as ”semanas da tristeza”.

Semana da tristeza é o que chamam os meus filhos às semanas em que o pai, estivador no porto de Lisboa, está no turno da noite. Este turno, cá em casa, quer dizer que essa semana não há pai. Pois mesmo sendo turno da noite, o meu marido é obrigado a entrar às 8 horas da manhã e a sair às 24 horas.

Por isso, basta de pressões psicológicas!

Basta de insegurança em relação ao pagamento de ordenados a tempo e horas para fazer frente às despesas.

Basta de pânicos, sem saber, quando ele sai, se Deus mo vai mandar de volta… A última vez que foi, Deus mandou-mo um pouquinho amachucado…

Não quero saber de palavrões como precariedade, austeridade, e muito menos subsídios.

Só quero que o deixem trabalhar com dignidade, em segurança e com um horário compatível com uma família funcional, com tempo para filhos e afectos. Ah, e já agora com um ordenado que nos permita viver. Não os 600 euros que o patrão oferece aos trabalhadores da empresa concorrente, que os próprios criaram, e que ameaça acabar de vez com o nosso sonho. Deixem-nos viver!

“Quero que deixem o meu marido trabalhar em paz”, por Alexandra Rijo

Alexandra Rijo

Vou tentar dizer como é ser esposa de um estivador.

Quando era eventual: eram muitos dias a ir almoçar a casa da minha mãe para ela me mandar comida e jantar para ele levar para o trabalho, pois durante a minha gravidez estive de baixa e o dinheiro tinha de dar para as despesas. Depois, quando a minha filha nasceu, não esteve comigo em casa os dias que tinha direito, porque iniciou um curso que lhe permitia deixar de ser eventual.

Era estar em pé com a filha ao colo até à meia-noite a chorar com cólicas à espera que ele chegasse para poder descansar um pouco. Eu sei que ele também precisava de descansar, pois às 6 horas estava de pé para ir trabalhar e regressar novamente à meia-noite!

Depois da segurança profissional veio a dificuldade em não fazer horas extras, pois precisava de descansar, queria estar com a filha, comigo, e não podia.

Eu nunca quis conhecer os locais onde o meu marido trabalha para não viver mais assustada, pois quando adormeço antes de ele chegar e acordo de repente e ainda não está em casa fico aterrorizada, e se não atende o telefone penso logo no pior, pois já houve vários acidentes mortais de colegas.

Já precisei de pedir à dona do ATL da minha filha se a podia levar para casa pois tive de ficar até mais tarde no trabalho e só a fui buscar às 20.30.

Já são muitos anos a trabalhar muitas horas. A minha filha ainda tem sorte, pois sai com o pai de casa e é nesse momento que se vêem, agora o meu filho, que tem 3 anos e fica comigo em casa, já me diz “preciso do meu pai”, “mãe vai buscar o pai, por favor”, com as mãozinhas juntas que dá dó…

Estou a escrever esta carta e a minha filha está a chorar. Não é fácil.

Neste momento estou desempregada e não posso aceitar trabalho/emprego em que o horário não me permita ir buscá-los ao infantário/ATL. Nunca posso contar com ele. Nunca sabe quando vai estar em casa.

Quero que deixem o meu marido trabalhar em paz.

Quero não perder a minha casa.

Quero não ter de pedir ajudas.

Quero não ter de viver de um abono.

“Tenho orgulho em ver esta classe de estivadores unida e a lutar pelos postos de trabalho, pelo seu semelhante e pelo país”, por Lina Vinagre

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Ser mulher de estivador de certeza que não é muito diferente de ser mulher de um bombeiro, de um agente das forças policiais, de enfermeiro e de outras tantas diferentes profissões. Mas hoje grito com toda a minha garra como esposa de um estivador.

Eles não são malandros, não são uma classe privilegiada. São homens que trabalham como todos os outros, e querem trabalhar o horário normal das 8 horas por dia, mas não deixam. Não deixam e eles têm de fazer horário de 16 horas e por vezes de 24 horas. E acima de tudo não podem recusar porque têm de trabalhar para manter uma família.

Família? Aonde está a família?

Nós os dois queríamos criar um projecto familiar e tem ido tudo por água abaixo.
Eu trabalho, na graça de Deus, mas não vivo, sobrevivo como tantas famílias.
Em casa sou mãe e tantas vezes faço o papel de pai. Todos os dias,quando saio de casa com a minha única filha de 8 anos, tenho sempre a mesma pergunta: “Mãe, o pai hoje vem jantar a casa?”

“Filha, não sei, só logo às 15 horas é que a mãe sabe.” Sim! Só no próprio dia é que sabemos, porque as nossas vidas são planeadas consoante a entrada e saída de navios.
Ao chegar a casa depois de um dia de trabalho, de compras de supermercado, volto a ter uma pergunta da minha filha: “Mãe o pai já chegou?” E que resposta posso dar? Entro em casa e oiço gritos: “Paiiiii, Paiiiii”, e vejo a tristeza estampada no rosto da minha filha.

“Mãe, o pai não está em casa!”

“Sim, filha, o pai foi escalado para o turno da noite.”

Depois de todos os nossos afazeres, então ela liga ao pai a desejar boa noite e diz que tem muitas saudades dele. Quantos momentos marcantes da sua filha já perdeu este pai?

Quantos?

Eu quero trabalho digno para o meu marido e para os colegas. Não é justo os patrões acabarem com os postos de trabalhos destes estivadores para criarem postos de trabalho com condições de miséria e eles ganharem milhões. Não quero que o meu marido seja mais um da estatística do desemprego, não quero e nem aceito.

Há trabalho para ele e para tantos homens. Não permitam que isto aconteça.

Quero viver, pagar as minhas despesas e sempre com a receita do nosso trabalho.
Não queremos ser mais uma família a ter de sobreviver com ajudas de outros.
Quero um marido e um pai que acompanhe todos os momentos da nossa família.
Quero que tenha tempo para brincar com a filha e que não diga quase sempre o mesmo: “Agora não, o pai está cansado, o pai não consegue porque está com dores.”

Não é isto que eu quero!

Fogo, quero o meu marido a trabalhar, mas também que receba com dignidade e a horas.
Quero ser feliz, tenho esse direito.

Sou portuguesa com muito orgulho e ainda mais orgulho em ver esta classe de estivadores unida e a lutar pelos postos de trabalho, pelo seu semelhante e pelo país.

Queremos viver e não sobreviver.

 

“Ser mulher de um estivador é ser o seu porto seguro, um apoio, e é lutar ao seu lado por uma vida digna”, por Ana Rato

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Por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher. Sim, um estivador é um grande homem, sinto orgulho em ser mulher de um estivador, mas para sê-lo também é preciso ser uma grande mulher.

Ser mulher de um estivador é passar semanas a fio quase sem ver o marido, é abrir mão de uma carreira profissional, de vida social e familiar, de ter tempo de namorar, de ir ao cinema, mas ainda assim sentir um enorme orgulho! Só um grande homem suporta trabalhar 16 horas por dia, dias a fio, ou 24 horas seguidas, como tantas vezes aconteceu. Ser mulher de um estivador é viver com o coração nas mãos, não saber até quando o marido aguentará isto, não saber se o marido se conseguirá manter acordado no caminho de regresso a casa, pois o cansaço é extremo! Ser mulher de um estivador é tudo isto e muito mais, mas o que dói mais é ver-lhe estampado no rosto o desgosto de não ver a filha crescer.

Quantas e quantas vezes o meu marido, esperançoso, promete que este fim de semana será nosso, a três, e vai conseguir ficar em casa, passear, brincar com a menina, passearmos o cão, termos refeições juntos… E quantas vezes pela manhã o telefone toca e os planos foram em vão: “Tens mesmo que vir, não há mais ninguém para a máquina.” E ele tem de ir, até porque se não for ainda leva com um processo disciplinar. E ficam os planos à espera de outra oportunidade que muitas vezes tarda a chegar.

Temos uma filha pequena, de 15 meses, que na sua ingenuidade já chama pelo papá pela casa toda procurando por ele. “O papá foi trabalhar, meu amor”, respondo eu.

E dói! Dói quando o meu marido, às vezes, passados dias de não ver a filha, me diz: “A nossa menina está tão linda e inteligente, já está tão crescida e tão diferente.” Como se nem vivêssemos os três na mesma casa… Vivemos, mas o pai sai de casa as 6.45 e a menina está a dormir, chega à 1 da manhã e a menina está a dormir.

E dói! Dói este esforço que fazemos enquanto família, o meu marido que trabalha dia e noite, arriscando a vida, debaixo de frio e chuva, calor, vento, a trabalhar 16 horas por dia para ter um ordenado digno de vivermos os três, sem mordomias, mas vivermos dignamente, sem dívidas, com as contas em dia, embora sem vida social. Eu, como mulher, a criar e educar a nossa filha sozinha, a cuidar da casa e da roupa, a ter sempre inúmeras refeições prontas para que o meu marido possa levar e poupar assim mais algum dinheiro. E continuar desempregada, à procura de trabalho, um trabalho que me permita um horário que me permita cuidar da minha filha, porque o pai não vai poder cá estar… No fim disto tudo, deste esforço em família, é a injustiça de ver o meu marido em risco de perder o seu posto de trabalho, que nos dá o único sustento para viver, ter o ordenado em atraso e ver ainda a sua imagem enquanto estivador denegrida na comunicação social. É injusto, é angustiante, é revoltante!

Neste momento, ser mulher de um estivador é ser o seu porto seguro, um apoio, e é lutar ao seu lado por uma vida digna, porque nós QUEREMOS VIVER e não SOBREVIVER!

A mulher de um estivador revoltada e em luta!